terça-feira, junho 03, 2008

Ainda o Teatro da Trindade

O meu carissimo João Tunes no seu Água Lisa 6 decidiu comentar o meu post anterior, o que muito me apraz. Como ainda não aprendi a fazer aqui publico, de seguida, o seu comentário e por inteiro:

"Com a devida vénia na intromissão, julgo haver aqui um equívoco que não é de somenos. É que começa-se por se falar em dinâmicas de transformação (comportando, é verdade, mais mortes que nascimentos) do painel partidário e acaba-se a cristalizar os actuais partidos como se fossem blocos monolíticos intransformáveis. Isto, no exacto momento em que a esquerda atingiu o ponto de saturação dos bloqueios dos partidos de esquerda. O que prenuncia mudanças. Incertas, mas mudanças. Acima, ou ao lado, das forças que querem conservar posições conquistadas e enquistadas.

Nos partidos de esquerda, só o PCP tem o direito a ser considerado um partido consequentemente conservador, ou seja, partido de ontem, hoje e amanhã. Que, na situação presente, lhe vai permitir crescer uns pontos e uns deputados. Pela mera conjuntura do crescimento do protesto não estruturado num projecto de superação, apenas cavalgando uma onda de radicalismo anarco-populista de fachada anti-socialista. Mas esse crescimento vai gerar a sua próxima crise: ao engordar em votos e em presença parlamentar vai conflituar-se não com outros, muito menos com a burguesia, mas com a sua própria doutrina (revolucionária, não democrática). Crescer sem capacidade para influenciar e transformar, sem ser alternativa e alheio a política de alianças, o previsto crescimento eleitoral do PCP é como engordar um animal para o exibir como bicho de companhia.

Nem o PS nem o Bloco são partidos estáticos e muito menos homogéneos. O PS, exaurida a praxis governativa da sua asa direita, a situacionista-clientelista, tem de deslizar para a esquerda. Até porque não suporta, em simultâneo, o efeito de uma credibilização da direita (o que MFL, muito provavelmente, vai dar ao PSD) e um desgaste à esquerda com hemorragias de votos a caírem nos regaços parasitas do BE e do PCP. Para esta viagem pendular e impositiva - mais dia, menos dia – resta ao PS as ajudas de Alegre e de Soares. O Bloco, se crescer (e é fundamental, para a esquerda, que cresça nas próximas eleições e, se possível, mais que o PCP), vai ter de se responsabilizar, tornar-se um partido adulto, assumindo a fase do fazer, representando, dentro ou fora, a ponta esquerda da asa esquerda do PS. E é aqui que, mais uma vez (reproduzindo a cena das últimas eleições presidenciais), a chave se chama ou chamará Manuel Alegre (neste campo, seca-se a influência de Soares, enquanto guru). Até lá, se lá chegarmos, não sendo tempo da coisa, há que testar a coisa. Amanhã no Trindade, com "canto livre" e sem casamento na vista dos binóculos, será uma forma, como qualquer outra, de alguns aprenderem que quem não se conhece não se namora."

Como sempre, muito bem argumentado.

Contudo, em minha modesta opinião, as coisas, as dinámicas partidárias são, quase sempre, correlatas de equivalentes sociais, económicos, políticos, culturais e, por que não, dependentes de personagens com dimensão histórica, com carisma. Coisa impensável de aceitação no PC, mas mais do que aceitável no PS. Não sei como andam os bloquistas nesta matéria,do papel do individúo na história, mas Louçã já "demonstrou" que o marxismo começa a ser objecto da historiografia, menos da análise política e, menos ainda da praxis política, teoria para a acção.

É provável que o PC ainda esteja a viver da força fantasmática de Cunhal(!) avivada por uma "deriva" internacionalista inenarrável, como tão bem o João Tunes o documenta, e bastamente, no seu blogue (China, Tibete, FARC colombianas, Cuba, Venezuela, ma non tropo...).

Onde a minha perplexidade se mantém, e porventura o que nos divide, é o putativo liderante da "coisa": Manuel Alegre.

Eu teimo em ter memória. Ainda ontem, numa homenagem a Benard da Costa, como cronista de jornais, reencontrei "velhos" combatentes, sindicalistas. Falámos do ontem, do hoje e, ainda um pedaço do amanhã.

Quando o velho Soares tinha responsabilidades governativas tratava os sindicalistas da tendência socialista da intersindical como títeres do PC. Alguns deles, em desespero, iam falar com o Alegre - que lhes repetia, então, os sentimentos e opiniões do líder bem querido, secundando-o por inteiro. E falámos, sobretudo de questões sociais, de desigualdades, de má partição da riqueza.

Recordo-me ainda,e com algum azedume o faço, do Manuel Alegre, secretário de estado da comunicação social (não sei se a designação está correcta) dum governo do Soares: foi ele que encerrou o Século, sem cuidar do futuro dos trabalhadores (alguns suicidaram-se) e sem curar, nomeadamente, de preservar o acervo fotográfico do primeiro e imenso repórter português:Joshua Benoliel.Dezenas de caixas com "negativos" daquele fotografo desapareceram para sempre. Deste desastre queixou-se-me, tempos depois, a "directora" do Arquivo Nacional de Fotografia.

Pois aqui está: acho que à "coisa" faltará, desde logo, o líder federante e federativo.

Gosto muito do Alegre, contista e prosador. Do poeta, tem dias. Do político, digo-o sinceramente, não me comove, não me convence e, menos ainda, me mobiliza para o que quer que ele pense que pode fazer, ou vir a fazer, na política em Portugal.

Não imagino sequer o Manuel Alegre a ser, desculpe-se-me a metáfora, a Maria Antonieta Macciochi portuguesa, uma convicta e sólida gramsciana, que liderou, em tempos (creio, se a memória não me atraiçoar, no pós maios e junhos de 68...), em Itália, um movimento que, na altura acompanhei com algum interesse e atenção: Il Manifesto.Não creio que as figuras que acompanham o Alegre na publicidade do evento do Trindade, Alegro e Soeiro, tenham essa vocação liderante.

Veremos o que há-de, ou não, sair do Trindade. Talvez um namoro oficializado, com foto de compromisso? Talvez.

Não vem mal ao mundo e menos ainda aos que vão ao Trindade por modo de se conheceram, para poderem (ou não) namorarem, que eu pense desta maneira e que não cultue os méritos políticos do bardo.

A vida, assim como a amizade, não se fazem só de assentimentos. Fazem-se de caráter, de honestidade, de frontalidade, de consciência, de ética e de valores. Isto tudo tem o João Tunes que baste e eu faço-o, todos os dias, por merecer.

JA
Adenda
O João Tunes contra argumentou, e bem.
O que se me oferece dizer sobre a questão da pureza e dos puros, socorrendo-me de pensamento alheio, aqui fica:
1/ "É próprio do homem comum ser exigente com os outros. Mas é próprio do homem superior ser exigente consigo próprio." Marco Aurélio, estoico romano;
2/ " Á marginalidade dos puritanos, sempre preferi a pureza dos marginais.", anónimo.
É evidente que as minhas razões, em relação ao Manuel Alegre, não se esgotam nas que aduzi na minha argumentação. Há mais, diferentes e doutra ordem. Mas, por razões de contenção e eficiência - centrei-me nas que escolhi.
A conversa, como sempre, com o meu particular e venerado João Tunes está boa, mas creio que valerá mais - retomá-la após a iniciativa do Trindade e com ideias mais claras sobre as perspectivas da "Nova Esquerda"!
JA

3 comentários:

Antonio disse...

Il Manifesto, recorda-me sobretudo Rossana Rossanda, e Manuel Alegre, nem de longe tem a estatura política e moral de Rossana Rossanda, que alias, recentemente editou as suas memórias, que, talvez seja um sinal, passram completamente despercebidas por Portugal, pelo menos nunca ouvi falar.
Alegre, como poeta escreveu das coisas mais bonitas que já se escreveram em português; como prosador, não gusto; normalmente, os poetas quando se metem a prosadores, estragam tudo. Claro que a poesia de Alegre tem que se lhe diga. Alegre correu riscos quando optou por escrever poesia política. E nem sempre conseguiu dar uma dimensão poética ao que escrevia. Mas vale pelo tempo emq ue foi escrita e pela circunstância.
Alegre a liderar algo de grande à esquerda? Não o creio. Teria que se desligar de vez do PS e abjurar tudo o que ele fez no PS. Eu não me esqueço das circunstâncias em que o PS foi formado…e que são demasiado tristes, como se sabe. Eu não me esqueço que o PS em conjunto com o PSD e a ajuda activa do CDS é responsável pelo estado em que Portugal se encontra.

Aqueduto Livre disse...

Caro António,

Tem toda a razão quanto à lídere de Il Manifesto: Rossana Rossanda. Creio, no entanto, que a Macciochio também por lá andou...

Se trouxe o Il Manifesto italiano à colação - foi só para exemplificar que, por norma, dissenções d'intelectuais, no interior dos Partidos tradicionais das esquerdas - não resultam, nem em tomadas de poder, nem em políticas novas!...

Abraço.

JA

Antonio disse...

Meu Caro JA, estou completamente de acordo, creio até que podemos dizer que é uma regra.
Com o Il Manifesto sucedeu precisamente isso, apenas com a variação de a Rossana Rossanda ser uma intelectual de grande estatura.
Também, creio que a Macciochio andou pelo Il Manifesto.
Abraço
António Eduardo Lico