sábado, maio 10, 2008

Ó Catilina... (1)

"Pode esta censura ser rejeitada na Assembleia da República, mas sem dúvida é aprovada no País".
Palavras foram ditas por Bernardino Soares, líder parlamentar do PCP, no passado dia 8, no debate sobre a moção de censura.
Não fiquei perplexo nem apoplético. O Bernardino, de uma vez para sempre, abdicou da Revolução; prefere a Profecia. Trocou Marx pela Sibila.
É um homem sem dúvidas -- ele sabe de ciência certa ( da sua ciência da qual não se vislumbram os fundamentos, as investigações, os resultados eleitorais, a representação política), o Bernardino sabe, de ciência certa, que o País aprovaria a moção de censura que os seus representantes eleitos ( do país) na maioria reprovaram. O Bernardio sabe mais do Povo do que o Povo sabe do Bernardino. O Povo é essa identidade mítica e tão abstracta que se engana sempre: nunca se lembra que o PCP é também um partido, o melhor partido, o que lhe dá melhores garantias. Mas o Povo, essa nebulosa que inquieta os bernardinos, nunca escolhe o PCP como o seu representante mais confiável. Vá-se lá saber porquê.
Em Bernardino,o dogma e a fé falaram mais alto que o voto. Eu bem sei que dizem que a fé move montanhas, ainda que até hoje se desconheça por inteiro que qualquer fé, seja de que credo for, tenha movido montanhas. Mas o Bernardino sabe, e, sem dúvida, que o país aprovaria a sua moção de censura Há melhor argumento do que este: não ter dúvidas e ter o país inteiro por ele?
O Bernardino é assim: venham os amanhãs que a fé já cá canta.

Um acrescento: andam por aí línguas maledicentes a rumorejar que esta moção de censura foi um gesto público de aviso à CGTP para não ser conciliadora, nada conciliadora, na concertação social. O respeito é muito bonito e a autoridade do Bernardino é inquestionável.

Pedro Castelhano

1 comentário:

Antonio disse...

Como sou, assim, a tender para o maledicente, embora sem gravidade, inclino-me para a hipótese de os Bernardinos deste mundo, perdão deste PCP pretenderem enviar um aviso à navegação, que é como quem diz, à CGTP.